Fotos: Ken Rathbun & Wal Nascimento
Dunrobin é sem dúvida um dos castelos mais bonitos da Escócia. Parece tirado de um conto de princesa. Não bastasse o estilo, esse velho bonitão e grandão tem história pra mais de metro.
Dunrobin é conhecido como o lar dos condes e duques de
Sutherland (Terras do Sul) desde o século XIII. Já era uma fortaleza famosa em
1401. Os títulos de nobreza estão entre os mais antigos da Escócia e a família
é uma das mais poderosas do reino britânico. Com tanto dinheiro e poder
envolvidos, não é de admirar que a história seja tinta de sangue aqui e ali. Tem,
por exemplo, o caso da tia (Isabelle Sinclair) que envennou e matou os
sobrinhos pra que o filho dela assumisse a herança e os títulos (e o castelo) em 1567. Ela só não
contava que o próprio filho comesse do mesmo prato envenenado. Nem Shakespeare
pra escrever tragédia maior. Morreu que nem Judas, suicida cheia de remorsos.

Como nos
livros escritos por Jane Austen, casamento era um importante meio de subir na
vida ou de manter o status e os Sutherland tinham fama de casar bem no ranking
social. Só subiam ao altar com alguém à altura J. Segundos casamentos é que eram um pouquinho
mais arriscados. Sabe como é, num tem mais pai e mãe pra forçar o indíviduo a
casar direito. Foi o que aconteceu com um dos dukes de Sutherland. Enviuvou, se
engraçou por uma plebeia bem mais nova e casou. Os herdeiros do primeiro
matrimônio bem que tentaram dissuadir o velhinho, mas nada foi capaz de evitar
a tragédia anunciada. Não muito tempo depois o duque morreu e, pra não abrir
mão de Dunrobin, os filhos dele tiveram que construir um castelo novinho pra viúva.
Passamos duas noites nesse outro castelo, mas essa já é outra história…
Mais histórias sobre o clan Sutherland aqui.
Informações sobre como visitar o castelo, aqui.
O interesse
era mais acadêmico (tenho que escrever um texto sobre o assunto). E aí desde de que
começei a ler sobre eles não consigo parar. Tem me dado mais prazer que livro
de ficção. Uma verdadeira aventura! A história dos Rolos do Mar Morto ,
garanto, é melhor que Indiana Jones!
Tudo
começou quando um pastor beduino perdeu um de seus animais. E como na parábola
bíblica, o bom pastor foi em busca da ovelha desviada e acabou achando um
tesouro perdido. Foi entre 1946 e 1947 que esse conto teve início e a partir daí
foi dada a largada para uma caça ao tesouro cheia de aventura, intrigas e
muitas negociações internacionais. Estudiosos de todo o planeta queriam por os
olhos e as mãos nos documentos que não paravam de ser desenterrados pelos beduínos. Cerca
de 900 manuscritos foram encontrados em 11 cavernas na região de Qumran (localizada
em atual território palestino) de 1947 a 1956.
No começo,
ninguém acreditou no primeiro pastor beduíno (o da ovelha perdida, lembra?). Os
sete primeiros rolos encontrados por ele ficaram rolando de um canto a outro da
casa, indo parar de uma mão a outra. Dizem que até brinquedo de criança virou.
Outros dizem que certas partes de um rolo viraram coisa pior e não puderam ser
reconstituídas. Até que o monge Athanasius Ye-shue Samuel se
interessou pelos artefatos e enviou amostras para o departamento de arqueologia
mais famoso dos States que, justo no dia, não contava com seu mais famoso arqueologista
William Albright (estudiosos também tiram férias). Alunos dedicados tiraram
fotos dos documentos e mandaram por correio para o professor que quase foi à
loucura com a descoberta. Assim, só de
ver por foto, Albright constatou que os fragmentos vindos de Qumran eram a
maior descoberta do século 20! Sábias palavras que vem sendo repetidas desde
então. Mal sabia ele, no entanto, que muitos outros pedaços de história antiga estavam
por vir. Muitos deles mais pra migalha que pedaço. É que os achados eram
vendidos de acordo com o número de fragmentos. Quanto mais fragmentada a obra,
mais lucrativa. Daí já viu. Sabe-se lá quantos rolos foram repartidos sem dó
por seus primeiros descobridores, o que multiplicou o trabalho dos
arqueologistas. Foi daí que o católico frances De Vaux teve a brilhante idéia
de começar a negociar com os beduínos por centímetro quadrado de cada fragmento
trazido, evitando assim que outros rolos fossem desintegrados. Só que muito
dano já havia sido causado. Os quase 900 rolos viraram um quebra-cabeças de de
25 a 50 mil peças (o número varia de acordo com o método de contagem dos
arqueologistas). Não é de admirar que levou quase 50 anos pra desencaroçar esse
angu. No topo disso, ainda tinham as intrigas entre pesquisadores, as escavações
clandestinas, as espionagens, as guerras entre Israel e os árabes... As guerras
entre Israel e os árabes são um capítulo à parte. E isso eu deixo pra contar em
outra ocasião...
Sempre fui fascinada
por História(casada com um historiador não por acaso). Nos meus tempos de professora de mirins costumava dizer que a repetição é
didática e pedagógica. Não há matéria mais didática e pedagógica que História. É como na música da Maria Rita. Está sempre se "repetindo, repetindo, repetindo como num disco riscado." Seres humanos tem a
capacidade de cair no mesmo erro um zilhão de vezes! Não é assim com a política
e com a vida nossa de cada dia? Alguém já disse que insanidade é fazer a mesma
coisa e esperar por resultados diferentes. O que tem de gente insana no
planeta...E o que já viveu de gente insana, só o tempo pra desvendar e os
historiadores pra contar. Em vez de depressiva, História é pra ser instrutiva.
Estudar o passado pode ajudar a diagnosticar erros presentes e a prevenir erros
futuros. E se a história nem sempre é fácil de engolir, tem lá suas pitadas de
nobreza, de comédia e até de heroísmo. Momentos inspiradores que resplandecem em meio ao caos. Se não há tempero, há sempre a possibilidade de aprender com equívocos alheios.Um pouquinho mais de história para um mundo menos insano. Comecei pensando em postar alguma coisa sobre Os Rolos do Mar Morto, e lá vou eu outra vez, divagando...
O castelo Dunnothar (o que restou dele) é um dos mais antigos da Escócia. Suas ruínas são testemunhas de relatos incríveis, sangrentos, romanescos, inspiradores, escruciantemente tristes, por vezes quase engraçados, outras, repugnantes. Andar por entre seus muros e paredes semi-destruídos é uma experiência inesquecível.
A história não é bonita. É composta de sangue inocente derramado, traição e intrigas, numa exposição semi-nua da maldade humana, ainda que pincelada de nobreza por algum ou outro historiador. Mas o castelo em si, emana a dignidade dos gigantes ainda não tombados. Nem o tempo, nem os homens foram capazes de apagar a imponência de Dunnothar.
Os primeiros relatos de sítio contra o castelo datam de 680 AD. Situado em posição privilegiada, cercado de proteção natural, Dunnothar era uma fortaleza quase invencível. Quando sitiado, geralmente tinha mantimentos e guarnição suficiente pra durar meses. Se faltava armamento, o sistema sanitário passava a ser fonte alternativa. O que se coletava nos banheiros ia parar na cabeça dos inimigos literalmente em ponto bala. Quem disse que armamento biológico é coisa nova? Aqui, dizem, as jóias da coroa escocesa foram protegidas das mãos inglesas por oito meses a fio, contando apenas com uma pequena guarnição contra o poderoso exército inglês. O castelo foi abrigo de personalidades históricas como Maria, Rainha dos Escoceses, William Wallace, Marquês de Montrose e o rei Charles II.
William Wallace, o herói escocês que é retratado em Coração Valente, teve nas dependências do castelo uma de suas mais arrebatadoras vitórias. Soldados ingleses capturados após a batalha foram incinerados vivos na capela do castelo. Era a retaliação violenta pelas violências sofridas. Vingança, ainda que não seja nobre, é considerada legítima por alguns.
Num outro episódio violento e triste, 122 homens e 45 mulheres foram mantidos presos em condições sub-humanas dentro de uma única cela conhecida como Caverna dos Whigs (1685). Muitos morreram ali mesmo, outros morreram a caminho do exílio. O crime: professar uma fé diferente da do rei escocês.
Em tempos de paz o castelo esbanjava banquetes e festas nas quais a comida era de primeira, o vinho era dos melhores, mas ninguem sequer ouvia falar em bons hábitos de higiene.
Os rochedos e o mar que ajudaram a proteger Dunnothar ainda hoje o embelezam. Depois de turistas, pássaros costeiros são os visitantes mais frequentes. Ajudam a dar nova vida ao castelo e a amenizar a imagem austera de passado sanguinário.
Fotos: Ken Rathbun & Wal Nascimento. A terceira foto, de cima pra baixo, foi tirada na caverna dos Whigs (Whigs' Vault).

O castelo de Edimburgo é por si uma maravilha antiga. Investigar os recantos desse lugar é como assistir a um filme do lado de dentro da tela. Filme de guerra, com detalhes sangrentos que seriam um horror se vistos em cores e ao vivo. Os soldados da guarda, as torres, o imenso pátio com vista deslumbrante fazem do castelo um lugar mágico igual ao dos livros de história medieval. E como nos livros, o castelo tem uma sala de tesouros. Preciosidades de história real e uma pitada de mistério. O cetro, a coroa e a espada são feitos de metais e pedras nobres. Já a Pedra do Destino parece mais uma enorme pedra ordinária. É, no entanto, o principal símbolo do orgulho escocês. Alguns dizem ser esta a mesma pedra que Jacó usou como travesseiro, mas daí já é exagero de escocês que tem a imaginação maior que o orgulho. Segundo relatos, essa tem sido a pedra utilizada como assento de coroação dos reis da Escócia e durante muitos anos foi colocada debaixo do trono britânico. Talvez como forma de os ingleses humilharem os escoceses que, por muito tempo lutaram contra os primos por uma nação autônoma. Não conseguiram. Ainda hoje há nacionalistas dispostos a romper o laço escocês com o Reino Unido. Mas daí, só mesmo um outro highlander Coração Valente pra recomeçar essa guerra.


Como de praxis, eles não deixam tirar foto... Tomem minha palavra como testemunho de que as jóias e a pedra estão em algum lugar aí dentro.
Ps: O nacionalismo escossês ressurgiu de maneira intensa após a exibição do filme CoraçãoValente em 1995.

Escócia é um lugar cheio de surpresas, principalmente pra quem não olha onde pisa. Marcas da história estão literalmente sob os pés de quem vaga pelas ruas de Edimburgo, a capital escocesa. O castelo de Edimburgo é destino certo de turistas e historiadores. E foi a caminho do castelo que aprendemos sobre o beco da Maria Rei (Mary King’s Close). As ruas largas e mais estruturadas da Edimburgo atual foram construidas sobre outras ruas, casas e quarteirões inteiros. Mas o beco da Maria Rei foi preservado como testemunha de um passado enterrado há seculos. Pra entrar no beco é preciso fazer uma viagem ao subsolo. A gente desce uns degraus e pronto, volta alguns 400 anos no tempo. É fascinante, mas não é pra claustrofóbicos. O lugar é escuro, apertado e fantasmagórico. A gente entra em casas ainda preservadas no beco, aprende sobre seus ex-moradores e tem uma descrição vívida sobre a vida, a morte e o sistema sanitário do século XVII nesta parte da Escócia. Pouco mais de 400 anos atrás, você não gostaria de estar perambulando por este beco às 7 da manhã ou às 10 da noite. Este era o horário em que os moradores da vila costumavam se desfazer de todo o material fisiológico acumulado nos pinicos, bem ali, direto na rua. Os dejetos deslizavam pela ladeira íngrime até chegarem ao rio. Imaginei a cena, o cheiro, e não precisei de almoço por um tempo.
Obs: Maria Rei foi uma das moradoras mais influentes desse beco. Uma negociante de tecidos que acabou emprestando o nome ao lugar.
Imagens e mais informações aqui... (eles não deixam tirar foto L)
O que mais me encanta na biografia de Lincoln é o que pode ser lido nas entrelinhas do rosto pintado e recriado por artistas diversos. Tristeza, não depressão. Sabedoria, não arrogância. Compaixão em vez de austeridade. E paciência, muita paciência. Um caráter moldado pelo sofrimento e pela força de vontade desde os primeiros anos de infância desse homem sem religião declarada que demonstrava ter muito conhecimento de Deus.

Em 1858 Abraham Lincoln tentou ser eleito como senador mas foi derrotado por Stephen Douglas.Inimigo político e, a meu ver, pessoal. E foi nessa batalha perdida que Lincoln ganhou renome e respeito. Dois anos depois ele seria eleito presidente num dos processos eleitorais mais dramáticos dos Estados Unidos, na fase mais dramática do país. Estados do Sul sequer tinham o nome dele na cédula de votação. O discurso abolicionista de Lincoln e o sistema econômico baseado na mão-de-obra escrava não combinavam. O Norte, com economia mais forte e menos dependente de escravos, apoiava o presidente. Daí veio a guerra civil. Milhares de mortes num episódio que dividiu famílias e alistou meninos soldados. Quase cinco anos sob pressão social e política. E sob pressão você mostra quem realmente é. Lincoln mostrou-se um exemplo de líderança e humanidade (no bom sentido do termo).
O campo de concentração que entrou para a história como sinônimo de genocídio foi invadido no dia
27 de janeiro de 1945. As tropas do exército vermelho chegaram ao local tarde demais para os mais de 1 milhão de judeus já sacrificados. Vítimas para quem o salvamento não chegou.O anti-semitismo, exposto em letras garrafais, tintas de sangue nesta página negra da história da humanidade, poderia ter morrido com ela. Mas ressurge cada vez mais forte, mesmo nas palavras de
quem proclama a paz. Vale a pena verificar os arquivos de Nuno Guerreiro sobre o assunto, particularmente o ensaio entitulado "
Novo Antisemitismo? As novas faces do ódio mais antigo do mundo". Eis aí o "cálice de tontear todos os povos" de que nos fala Zacarias, para o qual o mundo se volta atônito. E não há explicação humana pra isso.