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Cardápio Natalino na Jamaica




 Uma variedade de carnes e peixes preparada ao jeito caribenho. O prato principal, pasmem, não é peru nem presunto. Esta é a hora e a vez do bode, que vem à festa todo verde. O prato não anima os olhos mas é um sucesso ao paladar jamaicano. Meu marido adora. O gosto é impregnado com tempero indiano. A sobremesa mais esperada é o bolo de fruta banhado em rum.  Gosto forte, marcante, e um tanto embriagador. A Jamaica tem obsessão por rum. Ou se bebe ou se come essa cachaça jamaicana quase que diariamente na ilha. Por fim, a bebida com que se brinda a chegada do natal e do ano novo: Sorrel, o usurpador! Toma o lugar do rum só por esse mês e vem em dose equilibrada com o gosto de cada um. A bebida típica natalina é feita das flores de um arbusto que parece só crescer na região do Caribe (não estou certa). As flores, de um vermelho tinto vivo, são mergulhadas em água fervente com gengibre e ficam de molho por uma noite. Há os que acrescentam alcool à mistura (rum, pra variar), mas a versão virgem é a mais popular na qual só se acrescenta mesmo um pouco de açúcar. O resultado é uma bebida com certa textura (não é rala nem transparente), com cor e consistência de vinho. O gengibre ajuda a dar um click, se colocado na medida certa. Em excesso, desce queimando, e há os que gostam assim. Nossa mãe jamaicana não se impressionou muito com o meu. Fraquinho, fraquinho, diz ela com ar de desapontada.
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Sandy Parte 2

Sandy virou mulher irada. Provocou mais de 50 mortes na região do Caribe, maior parte delas em Cuba e no Haiti (com a graça de Deus, a Jamaica foi um dos locais menos atingidos pelo furacão). Agora ameaça fazer estrago na costa americana. Em algumas partes já há alagamentos com chuva forte e vento impetuoso. O clima em uma boa parte da América está sendo afetado pelo fenômeno. Neve está vindo mais cedo e em forma de tempestade em Michigan. Que Deus os proteja.
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O hóspede

Vem dormir todas as noites na varanda de casa e nem se mexe quando a gente passa perto. Tá todo familiarizado como se a casa fosse dele. O problema é que também pensa que a varanda é banheiro... Ainda assim, uma gracinha, né?
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Sandy




Cheia de garra e ambição, a tempestade com nome de mulher decidiu subir na vida. Virou furacão. Rodou a baiana nas águas mansas do Caribe e agitou tudo por aqui. Sandy ainda estava mansinha quando passou pela Jamaica, mas ganhou força e ímpeto após dizer thau para a terra natal de Bob Marlen e fez estrago nas Bahamas. Agora promete  turvar as águas da costa americana e atrasar as eleições presidenciais. Essa Sandy. Ô moleca levada!

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Depois da Tempestade...



Vêm as ondas.... 

Ontem à tardinha em Montego Bay. Um dia depois da Sandy passar por aqui.
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Meu Herói Jamaicano



A Jamaica possui sete heróis nacionais, dos quais Samuel Sharp é o meu favorito. O rosto dele está gravado nas notas de cinquenta dólares jamaicanos. É a nota de menor valor monetário do país (mais ou menos 1 real). É também a mais comum. Por isso, todo mundo na ilha sabe sobre ele, pelo menos um pouco. Nascido e morrido escravo em Montego Bay(1801-1832), Sam Sharp foi um revolucionário pacifista. Mesmo escravo, aprendeu a ler e a escrever. Lia e conhecia a Bíblia, e era bastante respeitado por isso. Ainda hoje é considerado um dos maiores pregadores Batistas da Jamaica. Pregava para seus irmãos escravos e propagava o pensamento de igualdade de valores entre seres humanos tão presente nas Sagradas Escrituras. Em 1831, boatos de que o governo britânico havia abolido a escravidão nas colônias inglesas chegaram à Jamaica. Não era verdade. Mas o engano levou Sam Sharp a promover um manifesto pacífico contra a escravatura na ilha. A idéia era que escravos, sem uso de armas ou violência, deixassem de trabalhar no dia 25 de dezembro de 1831 (natal). A notícia se espalhou e chegou aos ouvidos dos donos de escravos antes de ser colocada em prática e o que deveria ser pacífico se transformou na maior rebelião escrava ocorrida na Jamaica. Navios de guerra e reforço vindo de outras partes da ilha fixaram base em Montego Bay. 14 brancos e 500 escravos foram mortos, entre eles Sam Sharp, que foi enforcado em maio de 1832. A vida e a morte desse herói não foram em vão. Por causa da revolução iniciada por ele, a Jamaica é considerada o berço da abolição da escravatura. A voz de Sam Sharp foi ouvida em solo britânico graças a William Knibb. O Missionário que havia presenciado os horrores infligidos aos escravos iniciou outros protestos na Inglaterra, exigindo a abolição do sistema em todas as colônias inglesas. Em menos de dois anos a lei havia sido aprovada. Dois anos mais tarde, escravos jamaicanos obtiveram liberdade. 
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Beleza Jamaicana


Negrill, Jamaica. Foto by Ken Rathbun.


"Quem na concha de sua mão mediu as águas e tomou a medida dos céus a palmos? Quem recolheu na terça parte de um efa o pó da terra e pesou os montes em romana e os outeiros em balança de precisão?"
Isaías 40:12.
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Outra piadinha de vida real


No departamento infantil de Bay Life Baptist Church...

A professora narra a estória de Davi e Golias enquanto as crianças dramatizam. “Quando o gigante Golias viu o tamanhozinho de Davi ele caiu na risada.” “Dá uma gargalhada, Golias,” comanda a professora. Golias obedece prontamente, colocando bastante expressão na risada. “Daí Golias,” continua a narradora, “começa a praguejar e a xingar Davi com toda a sorte de xingamentos.” Olhinhos voltados para ela em silêncio. “Dá outra gargalhada, Golias,” comanda a professora, para alívio do Golias que já tava pensando em como dramatizar aquela parte do texto.

Entre Brasil e Argentina

Jamaicanos adoram futebol brasileiro. A-do-ram. Quando digo que sou brasileira por essas bandas, eles desandam a falar e a perguntar (terror) sobre tudo e sobre todos envolvidos com bola no Brasil. Daí, quando digo que Futebol não é matéria realmente dominada por mim, eles me olham com cara de quem tá vendo um herege na frente.Se tento falar, passo vergonha. Então prefiro a técnica jornalística: em vez de responder, pergunto. E é com meus amigos jamaicanos que estou aprendendo um pouco mais sobre a religião Futebol no Brasil. Pelé e Sócrates, que não jogam há decadas, ainda são mundialmente conhecidos e reconhecidos. Soube dia desses que Sócrates se foi. O amigo Jamaicano que me deu a notícia tava com cara de quem tinha perdido um amigo. Descubro também que Ronaldinho só é considerado fenômeno de gordura e de preguiça, e que Kaká já foi o melhor jogador do mundo, mas que hoje o rei da bola é um argentino. Argentino? Pergunto entre incredulidade e estupefação. Deixo passar... Mais uns dias e retomamos a conversa. E lá me vem um pra me dizer que futebol brasileiro é isso e é aquilo, mas que não tá mais no topo. Os bonzões da bola do momento, diz ele com ar de entendido, são os argentinos. Desconversei pra não ficar irritada com o aprendiz de locutor esportivo. Posso não entender de bola, mas entendo de torcida. Perder o título de melhor do mundo, vá lá, que ninguém consegue ter tudo o tempo todo. Agora ser rebaixado pelos  vizinhos hermanos...não há sangue brasileiro que não ferva.

Em um orfanato na Jamaica

Entre os muitos orfanatos da Jamaica, um conquistou meu respeito e simpatia. Não é a regra. É uma animadora excessão num país onde crianças nascem como que ao acaso e são tidas como estorvo (parece familiar?). Cerca de 30 crianças recebem boa alimentação, roupas, educação fora do ambiente de claustro, reforço escolar para os que não acompanham o ritmo na escola, até aulas de natação numa piscina que veio como bênção extra com a casa recém adquirida. As aulas de natação são mais do que atividade extra curricular e exercício. São vistas como conhecimento básico na ilha onde mais de 90% da população não sabe nadar. Cercados por água e por tanta praia bonita, é mesmo uma pena, mas fato.  Os membros da equipe tomam como desafio. “Se entrou boiando, sai nadando”. E os molequinhos adoram.  Viram patinhos assim que chegam da escola. Trocam os uniformes por calções de banho e o próximo barulho que se ouve é um splash seguido por alagamento nas bordas do tanque. Os meninos maiores não tem os mesmos privilégios diários, mas, uma vez por semana, ganham um passeio como prêmio por bom comportamento. Quem fez tudo direitinho tem um dia de lazer em uma das praias de Montego Bay. O sucesso do prêmio garante a ordem nos outros dias. A instituição já funcionou em pelo menos outros quatro lugares, e agora tem paradeiro final num local extraordinariamente adequado. Não é o melhor lugar. O melhor lugar pra criança se chama lar, por mais pobre que seja, perto da família (real, adotada, do coração ou como queiram), por mais imperfeita que seja (não são todas?) . Não precisa observar muito pra saber que qualquer uma daquelas crianças trocaria todo o conforto que têm nesse orfanato dos sonhos por um colo de mãe de verdade. Ainda assim, um bom lugar para meninos e meninas que sofreram o bastante por uma vida. Crianças rejeitadas, espancadas, abusadas, abandonadas nas ruas jamaicanas, traumatizadas pelo mau dos outros têm, neste lugar, o que podem chamar de casa. E pensar que elas são privilegiadas se comparadas com as crianças de outras instituições, cuja realidade é muito mais dura, muito mais fria e muito mais parecida com a idéia que temos de orfanato.

Meus meninos e meninas da Jamaica


Falam mais do que ouvem, correm mais do que andam, andam mais do que devem e ouvem o que bem entendem, mas só fazem o que dá na telha. Quando não querem que eu entenda falam em Pátua. Se querem se fazer entendidos falam lenta e altamente (pensam que diferença de sotaque é sinônimo de surdez). Sou tia Wal quando querem fazer doce, sou “Miss” quando querem pedir favores, sou “dona” quando sabem que é hora de obedecer, sou “professora” quando me encontram na rua em meio de semana, e sou também colo para os que correram mais do que as pernas e pagaram com o nariz. Sou mil e uma entre os cinquenta cada domingo, tentando não perder o controle (o meu e o deles).   Com todas as peraltices do dia querem ser ajudantes, só pra poder mandar nos outros com ar de autoridade. Um dia me matam de rir, no outro me fazem querer arrancar os cabelos. E são tão fofos de derreter o coração. A parte mais doce e inocente do Caribe. 

Enquanto isso na Jamaica

Quase explodi a cozinha tentando cozinhar frango na pressão outra vez (a primeira tentativa foi ainda no Brasil- mamãe precisou de um fogão novo depois da experiência). Quero deixar claro que não foi por falta de jeito, foi jeito demais. A panela tava com um problema na tampa, e a engenheira aqui decidiu que podia dar um... "jeitinho"  (brasileira, né). Um pouquinho de papel aqui e a jeringonça começou a fazer barulho. Sinal de que havia dado certo. Mas daí que pressão é feita de ... certo, vapor. Vapor é nada mais, nada menos que... muito bem, água em estado gasoso. Água mole em papel seco... Já viu que o papel não continuou no estado em que estava por muito tempo, né?!  Foi-se pelos ares e com ele o vapor aromatizado e engordurado sabor frango, impregnando paredes, teto, janelas e cortinas, sem falar do chão. Justamente no dia em que o marido decidiu trabalhar em casa. Passo com pano, balde, desinfetante e mais um arsenal de produtos de limpeza em frente à porta do escritório, em direção ao local da tragédia.
Ele (sem saber do caos): "Precisa de ajuda?",
"preciso de uma cozinha nova", penso, mas respondo: "não, tou fazendo terapia ocupacional enquanto o almoço apronta."
Uma hora depois, janelas sem cortinas, paredes e tetos desinfetados, spagetti no fogo, meu marido aparece na porta.
"Pensei que íamos ter frango pro almoço..."
"Mudança de última hora no cardápio... a receita anterior tava muito complicada."
"Mudou alguma coisa por aqui além do cardápio?"
"Não de propósito," respondo.
Antes de sair da cozinha, pergunta:
Cheiro estranho por aqui não é?
"É..."

Sobre a tempestade

Nunca vi tanta agua caindo do ceu de uma vez só.  Ilhada em casa, sem luz ou internet,  descubro que o telhado não é tão bom quanto parecia no começo.  Água caindo do teto e se atirando janela adentro como cachoeira.  Depois das primeiras doze horas, restou-nos a cama como lugar seguro, seco e quentinho.  Tudo o mais alagado.  Livros e uma boa dose de bom humor pra ajudar a passar o tempo.  E pipoca com bolo de chocolate pra enganar a barriga que nao sabe sentir outra coisa alem de fome nessas horas.   E pensar que a gente comprou o kit tempestade pra calafetar as janelas mas nao teve tempo de montar.  Depois da tempestade, veio a faxina e a espera ansiosa por um sol preguiçoso.  Nada como a instabilidade clim'atica jamaicana.