Fotos Ken Rathbun e Wal Nascimento
Uma prenda extra pra quem vem a Dunrobin é a
exposição de aves de rapina. Durante séculos esses pássaros tem sido aliados caçadores da aristocracia escocesa.
Há uma
demonstração de treinamento duas vezes ao dia. Falcões, águias, e corujas viram
estrelas do show e mostram o porquê da fama de exímios caçadores. As aves
parecem muito à vontade com o treinador. É um barato assistir.
Essa aqui decidiu usar o turista como poleiro. Ah se não fosse a proteção daquele bonezinho.
Batendo aquele papo com o treinador e prometendo ser uma boa menina da próxima vez... :)

Minha favorita é essa corujinha ao lado cujo nome técnico eu não faço idéia. Por ser uma ave noturna, ela não vê muito bem, mas tem um ouvido... Muito engraçado quando ela procura pelo treinador escondido no meio da platéia. Vira a cabeça de um lado pra outro toda irrequieta...
Ao ouvir a voz do mestre, a bichinha vai cega e certeira atrás dele.
Dentre as muitas histórias de Dunrobin, a que mais me fascina é a do Quinto duque de Sutherland (1888-1963). Ele e a esposa, como não podiam ter filhos, decidiram aproveitar a vida e viajar pelo planeta, colecionando suvenirs de todo canto. Até aqui pela Jamaica vieram. Criaram um museu pra colocar todas as lembrancinhas de viagem. Lembrancinhas é jeito de falar, porque até tubarão empalhado eles trouxeram de volta. Com a morte da duquesa, o duque voltou a casar, mas as viagens deixaram de acontecer. Em 1963 ele também desistiu de respirar e desde então o ducado deixou de fazer parte da família Sutherland. A herança e o castelo foram deixados para a sobrinha que o casal tanto amava e mimava como filha. Abaixo, a entrada do museu da família.
Foto: Wal Nascimento
Margaret,
filha do 14º conde de Sutherland, é acusada de assombrar o último andar de
Dunrobin. A moça que viveu no século XVII se apaixonou por um plebeu. O pai
obviamente proibiu o enlace e trancafiou a filha na torre mais alta do castelo
enquanto tentava achar um genro mais apropriado. Uma das empregadas, com pena
da Margô, decidiu ajudá-la a fugir. Providenciou uma corda bem grande e avisou
o namorado da menina pra ficar na base da torre esperando, com o cavalo de
sobreaviso. Tudo arrumado. Quando Margaret começou a descer, o pai abriu a
porta do quarto. O susto foi tão grande que a pobre esqueceu de segurar a
corda. Caiu em direção à morte e ainda hoje, dizem, vive a perambular pelos
altos do castelo.
Este e outros contos são contados pelos guias que nos mostram os recantos e parte dos 189 quartos do castelo.
Fotos: Ken Rathbun & Wal Nascimento
Dunrobin é sem dúvida um dos castelos mais bonitos da Escócia. Parece tirado de um conto de princesa. Não bastasse o estilo, esse velho bonitão e grandão tem história pra mais de metro.
Dunrobin é conhecido como o lar dos condes e duques de
Sutherland (Terras do Sul) desde o século XIII. Já era uma fortaleza famosa em
1401. Os títulos de nobreza estão entre os mais antigos da Escócia e a família
é uma das mais poderosas do reino britânico. Com tanto dinheiro e poder
envolvidos, não é de admirar que a história seja tinta de sangue aqui e ali. Tem,
por exemplo, o caso da tia (Isabelle Sinclair) que envennou e matou os
sobrinhos pra que o filho dela assumisse a herança e os títulos (e o castelo) em 1567. Ela só não
contava que o próprio filho comesse do mesmo prato envenenado. Nem Shakespeare
pra escrever tragédia maior. Morreu que nem Judas, suicida cheia de remorsos.

Como nos
livros escritos por Jane Austen, casamento era um importante meio de subir na
vida ou de manter o status e os Sutherland tinham fama de casar bem no ranking
social. Só subiam ao altar com alguém à altura J. Segundos casamentos é que eram um pouquinho
mais arriscados. Sabe como é, num tem mais pai e mãe pra forçar o indíviduo a
casar direito. Foi o que aconteceu com um dos dukes de Sutherland. Enviuvou, se
engraçou por uma plebeia bem mais nova e casou. Os herdeiros do primeiro
matrimônio bem que tentaram dissuadir o velhinho, mas nada foi capaz de evitar
a tragédia anunciada. Não muito tempo depois o duque morreu e, pra não abrir
mão de Dunrobin, os filhos dele tiveram que construir um castelo novinho pra viúva.
Passamos duas noites nesse outro castelo, mas essa já é outra história…
Mais histórias sobre o clan Sutherland aqui.
Informações sobre como visitar o castelo, aqui.
O castelo Dunnothar (o que restou dele) é um dos mais antigos da Escócia. Suas ruínas são testemunhas de relatos incríveis, sangrentos, romanescos, inspiradores, escruciantemente tristes, por vezes quase engraçados, outras, repugnantes. Andar por entre seus muros e paredes semi-destruídos é uma experiência inesquecível.
A história não é bonita. É composta de sangue inocente derramado, traição e intrigas, numa exposição semi-nua da maldade humana, ainda que pincelada de nobreza por algum ou outro historiador. Mas o castelo em si, emana a dignidade dos gigantes ainda não tombados. Nem o tempo, nem os homens foram capazes de apagar a imponência de Dunnothar.
Os primeiros relatos de sítio contra o castelo datam de 680 AD. Situado em posição privilegiada, cercado de proteção natural, Dunnothar era uma fortaleza quase invencível. Quando sitiado, geralmente tinha mantimentos e guarnição suficiente pra durar meses. Se faltava armamento, o sistema sanitário passava a ser fonte alternativa. O que se coletava nos banheiros ia parar na cabeça dos inimigos literalmente em ponto bala. Quem disse que armamento biológico é coisa nova? Aqui, dizem, as jóias da coroa escocesa foram protegidas das mãos inglesas por oito meses a fio, contando apenas com uma pequena guarnição contra o poderoso exército inglês. O castelo foi abrigo de personalidades históricas como Maria, Rainha dos Escoceses, William Wallace, Marquês de Montrose e o rei Charles II.
William Wallace, o herói escocês que é retratado em Coração Valente, teve nas dependências do castelo uma de suas mais arrebatadoras vitórias. Soldados ingleses capturados após a batalha foram incinerados vivos na capela do castelo. Era a retaliação violenta pelas violências sofridas. Vingança, ainda que não seja nobre, é considerada legítima por alguns.
Num outro episódio violento e triste, 122 homens e 45 mulheres foram mantidos presos em condições sub-humanas dentro de uma única cela conhecida como Caverna dos Whigs (1685). Muitos morreram ali mesmo, outros morreram a caminho do exílio. O crime: professar uma fé diferente da do rei escocês.
Em tempos de paz o castelo esbanjava banquetes e festas nas quais a comida era de primeira, o vinho era dos melhores, mas ninguem sequer ouvia falar em bons hábitos de higiene.
Os rochedos e o mar que ajudaram a proteger Dunnothar ainda hoje o embelezam. Depois de turistas, pássaros costeiros são os visitantes mais frequentes. Ajudam a dar nova vida ao castelo e a amenizar a imagem austera de passado sanguinário.
Fotos: Ken Rathbun & Wal Nascimento. A terceira foto, de cima pra baixo, foi tirada na caverna dos Whigs (Whigs' Vault).
Xadrez não sai de moda na Escócia. Está presente em roupas, acessórios, tecidos, até mesmo calçados. Cachecóis em xadrez das mais variadas cores são souvenirs que batem recorde em vendas durante o ano inteiro. Exóticas e bem mais originais são as saias masculinas (kilts), vendidas em quase todas as lojinhas escocesas. Náo é só estilo. Os diferentes modelos e cores do xadrez são marcas de identidade. Eles representam clãs e famílias importantes da Escócia, dentre as quais, destaca-se a família Mcdonalds ( a companhia de fast food americana não é de nenhum parente). Cada família ou clã tinha, no passado, um modelo xadrez pra vestimenta de guerra, uma flor como insígnia, e um brasão. Por mais de 200 anos a Inglaterra proibiu o uso do xadrez na Escócia. Foi a forma de humilhar os compatriotas escoceses que nunca aceitaram a posição de subordinados e vencidos.

Águas azul-escuro, misteriosas como as histórias que lhes deram fama. Coisa antiga. Os primeiros relatos têm mais de 1500 anos de idade. Emergida das profundezas do Ness, a lenda de um monstro que chegou a chamar a atençao da comunidade científica e que ainda hoje atrai curiosos e desperta a imaginação. Desde o século VI já se ouvia por aquelas bandas rumores de um habitante gigantesco nas águas do Ness. Lago estreito, longo e profundo. Em 2 de maio de 1933, uma fotografia de genuinidade não confirmada deu ares de veracidade a conversas de pescador regadas a muito wisky. A fofoca, autenticada pela mídia, transformou essa parte da Escócia numa das mais atrativas e populares. A fotografia foi considerada fraude em 1993. Em 2007 a BBC de Londres decidiu tirar dúvidas de uma vez. Mergulhadores equipados com câmeras e sonares fizeram uma varredura no lago. Gastaram horas e recursos sob o gelado Ness, mas nem sinal do bichão. A imprensa e o governo Escocês fizeram declaração oficial sobre a não existência do monstro. Ainda assim, a fantasia e a crença popular proliferam. Há quem jure de pé junto ter visto e até filmado sombras do astro que não gosta de aparecer.
Obs: “Meu Monstro de Estimação” (Water Horse) é um filme com uma versão muito bonitinha sobre a lenda do Ness. Vale à pena.
Ruínas do castelo Urquhart, às margens do lago.
Fotos: Ken Rathbun & Wal Nascimento.
Gado Highlander é o nome desse boizinho cheio de estilo. Adultos conseguem chamar mais atenção que os filhotes. O casaco espesso é traje apropriado ao clima, imperiosamente gelado durante a maior parte do ano por aqui. Os pelos na cara me lembram adolescentes com síndrome de emo. Uns com mechas, outros arrepiados, sempre caindo sobre os olhos. Não sei como conseguem ver (tenho a mesma dúvida quanto aos rebeldes sem causa da nossa espécie). E há quem os crie só pela aparência. São considerados atração turística na Escócia com razão. Passamos mais de uma hora tirando foto e admirando os bichinhos que parecem feitos de pelúcia. Deixaram-se fotografar à vontade enquanto mantivemos uma respeitável distância. Foi só eu tentar tirar foto perto de um deles e o rebanho inteiro decidiu procurar pasto em outra colina. Timidez ou arrogância perdoada. Nem precisa ser sociável pra ganhar em simpatia com todo esse escesso de fofura.
E aí seguem mais alguns cliques:
Meninas em dupla... até o comportamento parece infanto-juvenil.
Não me pergunte o que aquela banheira tá fazendo no meio do pasto.
Ao sabor do vento... adivinha o que são aqueles pontinhos escuros na grama verde?
Levando bronca...
Tudo bem, os filhotes também são uns fofos!
Pose de capa de revista... Esconde os seios, menina!
Clássica pose de tô nem aí.
Voltemos à Escócia
Em cada detalhe uma novela. Escócia dos muitos romances, das muitas guerras; de muito suor e de sangue derramados. Escócia das saias xadrezes, dos guerreiros heróis, das princesas fujonas, dos castelos encantados. Lugar de amores frustrados, de religiosos convictos, de clãs amigos, de familias inimigas, de mártires, de ruínas, de rochedos, de estradas sinuosas e estreitas, de muros de pedra e de cardos (flor selvagem que é símbolo nacional). País do wisky, do cordeiro, do boizinho estilista, das cachoeiras de verão, do inverno rigoroso, do clima instável. Tanto pra contar, tanto pra descrever, tanto pra não esquecer. Escócia do orgulho obstinado e ferido, que um dia sonhou com a independência, que decidiu lutar, e que ainda não desistiu. (Por que é que eu continuo na mesma tecla...)
Embalado pra viagem é assim...
Se você é daqueles super conscientizados com o meio ambiente e pensa que óleo de fritura é o mal a ser combatido no momento, melhor pôr a Escócia na sua lista vermelha (ainda tem circunflexo em “pôr”?). O povo banha tudo em óleo quente por aquelas bandas e sabe lá onde vão parar as sobras depois de usadas e reusadas. Carne, legumes, chocolate (sim, chocolate!), peixe, batata e o que mais aparecer fritos no mesmo tacho cheio de gordura (ao menos eles são a favor dos reutilizáveis – bom para o meio ambiente; efeito coquetel molotov para o corpo de quem se aventura).
Uma das comidas rápidas mais populares na Escócia é chamada “fish and chips” (peixe e batatas). Uma bela posta de peixe temperada com sal e pimenta, banhada no óleo fervente, servida com batatas igualmente engorduradas e um pouco de vinagre por cima (eles dizem que o vinagre acentua o sabor- acentua, mas não melhora em nada). Tão popular quanto churrasquinho em Santarém. Receita simples o suficiente para ser feita em casa. Um aviso: antes de começar a fritar meio mundo, melhor prevenir. Tenha leite de magnésia à mão. Esteja certo de estar perto de um banheiro o suficiente antes de iniciar a experiência quase suicida (o “suficiente” é calculado pela velocidade de suas pernas em metro por segundo após a ingestão de 5 ou 6 garfadas de peixe com 8 ou 10 batatinhas). É difícil encontrar qualquer coisa em situações de extrema urgência e há urgências que não esperam meeeesmo. Não escolha este menu se estiver faminto. É possível que coma mais do que o previsto e suportável pelo seu organismo.

O castelo de Edimburgo é por si uma maravilha antiga. Investigar os recantos desse lugar é como assistir a um filme do lado de dentro da tela. Filme de guerra, com detalhes sangrentos que seriam um horror se vistos em cores e ao vivo. Os soldados da guarda, as torres, o imenso pátio com vista deslumbrante fazem do castelo um lugar mágico igual ao dos livros de história medieval. E como nos livros, o castelo tem uma sala de tesouros. Preciosidades de história real e uma pitada de mistério. O cetro, a coroa e a espada são feitos de metais e pedras nobres. Já a Pedra do Destino parece mais uma enorme pedra ordinária. É, no entanto, o principal símbolo do orgulho escocês. Alguns dizem ser esta a mesma pedra que Jacó usou como travesseiro, mas daí já é exagero de escocês que tem a imaginação maior que o orgulho. Segundo relatos, essa tem sido a pedra utilizada como assento de coroação dos reis da Escócia e durante muitos anos foi colocada debaixo do trono britânico. Talvez como forma de os ingleses humilharem os escoceses que, por muito tempo lutaram contra os primos por uma nação autônoma. Não conseguiram. Ainda hoje há nacionalistas dispostos a romper o laço escocês com o Reino Unido. Mas daí, só mesmo um outro highlander Coração Valente pra recomeçar essa guerra.


Como de praxis, eles não deixam tirar foto... Tomem minha palavra como testemunho de que as jóias e a pedra estão em algum lugar aí dentro.
Ps: O nacionalismo escossês ressurgiu de maneira intensa após a exibição do filme CoraçãoValente em 1995.
Um autêntico guerreiro highlander... Ehehehehe...

Escócia é um lugar cheio de surpresas, principalmente pra quem não olha onde pisa. Marcas da história estão literalmente sob os pés de quem vaga pelas ruas de Edimburgo, a capital escocesa. O castelo de Edimburgo é destino certo de turistas e historiadores. E foi a caminho do castelo que aprendemos sobre o beco da Maria Rei (Mary King’s Close). As ruas largas e mais estruturadas da Edimburgo atual foram construidas sobre outras ruas, casas e quarteirões inteiros. Mas o beco da Maria Rei foi preservado como testemunha de um passado enterrado há seculos. Pra entrar no beco é preciso fazer uma viagem ao subsolo. A gente desce uns degraus e pronto, volta alguns 400 anos no tempo. É fascinante, mas não é pra claustrofóbicos. O lugar é escuro, apertado e fantasmagórico. A gente entra em casas ainda preservadas no beco, aprende sobre seus ex-moradores e tem uma descrição vívida sobre a vida, a morte e o sistema sanitário do século XVII nesta parte da Escócia. Pouco mais de 400 anos atrás, você não gostaria de estar perambulando por este beco às 7 da manhã ou às 10 da noite. Este era o horário em que os moradores da vila costumavam se desfazer de todo o material fisiológico acumulado nos pinicos, bem ali, direto na rua. Os dejetos deslizavam pela ladeira íngrime até chegarem ao rio. Imaginei a cena, o cheiro, e não precisei de almoço por um tempo.
Obs: Maria Rei foi uma das moradoras mais influentes desse beco. Uma negociante de tecidos que acabou emprestando o nome ao lugar.
Imagens e mais informações aqui... (eles não deixam tirar foto L)